Conto de carnaval
Sentia o coração pulsar mais forte, uma ânsia subia no seu peito, uma vontade de chegar logo. Assim que desceu do carro, já se sentia feliz, sem mesmo saber o que esperava por ela. Seu olhar admirava o horizonte, via um colorido alegre, sentia o chão vibrar abaixo de seus pés. O som que ouvia era o da alegria. A cada batida das alfaias, a cada sopro dado nos instrumentos, a cada nota, sentia um arrepio, as baladas dos maracatus, das orquestras de frevo, faziam com que se sentisse completa. Gostava da inquietude e da falta de silêncio, as pessoas animadas cantando os hinos, fazendo grandes orquestras de frevo em coro, cada um fazendo um ruído no ritmo das músicas, sem ensaio, na pura anarquia, fazendo até mesmo esquecer que não era necessário um instrumento para se fazer um bom carnaval.
Era enfim carnaval, e o mundo das fantasias estavam começando. Resolveu esquecer dentro de si quem era, e começar a incorporar outros personagens. Olinda poderia ser uma em várias, poderia ser quem ela quisesse sem sair do seu corpo. Todos os sentimentos reprimidos durante o ano eram extravasados através de seus personagens. Para ela aquilo tudo era um grande sonho, como um circo, cheio de alegria, cores e magia.
Para Olinda, o carnaval era vida, era suor, era ser humano, era esquecer todo e qualquer problema para ser feliz. Felicidade era a palavra que definia seu carnaval. Queria viver cada segundo intensamente. Para ela não existia pudor, religião, convicção, nada, só a liberdade de ser e fazer o que queria. Não se sentia incomodada com nada, nem com os
sprays de espuma, nem com os jatos de água saídos de pistolas de água, achava tudo lindo e maravilhoso. Subia e descia ladeiras como se andasse em uma linha reta e plana.
Depois de curtir intensamente os cinco dias de carnaval, Olinda estava se sentindo inteira, tinha certeza que arranjaria forças para conseguir agüentar o resto do ano, mas também tinha absoluta certeza que um grande vazio ficaria dentro dela. Sabia iria sentir falta de muitas das suas personagens, pois viveram tão intimamente nos últimos dias, que seria difícil se despedir dela. Mas a certeza de um próximo carnaval enchia seu corpo de esperança e a cabeça de idéias.
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postado por: CECÍLIA JAPIASSÚ PORTO 9:09 PM