Como adorar as drogas...
Quarta-feira, Outubro 27, 2004
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Vivendo um novo dia
Um dia Célia acordou achando que precisava dar uma guinada em sua vida. Mudar tudo o que a incomodava, ligar pra amigos que não falava desde que se formara, enterrar pra sempre todos os amores frustrados e mandar para o inferno todas as pessoas que tentavam fazer com que ela se sentisse menor. Ligou para seu trabalho e avisou que chegaria só no período da tarde e aproveitou sua manhã pra cuidar de si. Tomou um banho demorado, marcou hora no salão de beleza, fez as unhas e pela primeira vez na vida ousou colocar um esmalte vermelho; decidiu dar adeus as suas longas madeixas e radicalizou com seu novo visual. Foi numa loja e comprou tudo de mais novo e moderno. Chegando em casa doou todas as suas roupas velhas. Agora, oficialmente, mesmo que no externo era uma nova mulher.
Quando a tarde chegou, a realidade da vida antiga a abateu e nem mesmo os elogios de seus colegas adiantaram. Sentia que tinha feito uma mudança em vão. Já que decidira mudar, aproveitou e radicalizou: foi ao seu chefe, exigiu que ele lhe desse uma promoção, argumentando de todas as formas possíveis, que ela era a mais qualificada para o cargo. O seu chefe sem entender e até mesmo sem reconhecer quem era aquela louca que entrava em sua sala e fazia essa exigência. Achou tudo aquilo um grande despautério e a demitiu. Célia não chorou, nem lamentou o acontecido e por mais estranho que parecesse, ela se sentiu bem, achou que, agora sim, mudara algo em sua vida. Desprendera-se de um trabalho que tanto odiava. Sempre tivera a certeza que podia ir muito além daquilo, mas sempre lhe faltou ousadia, pois esta lhe parecia um sonho. Beliscou-se para ter certeza que estava acordada, e estava.
Corria pelas ruas sentindo-se livre, leve, como se a felicidade tivesse, finalmente, a alcançado. Mudou o percurso da sua casa, resolveu tirar os sapatos pra sentir a grama, as formigas, a vida.
Chegando àquela ligou pra suas amigas da faculdade. Mas, que realidade era aquela, em que elas viviam? Sempre bateram no peito e gritaram que jamais seriam submissas ao poder dos homens, que prefeririam morrer a serem dependentes. A realidade da maioria delas era a mesma: donas de casa e com filhos. Célia não sabia se se arrependia de não ter um marido e filhos ou se agradecia aos céus pela graça de ter construído bastante na vida! Desligou o telefone e refletiu por um longo momento fizera a coisa certa. E achou que sim. Queria mais e melhor. E decidiu não se abater com a realidade de suas amigas.
Resolveu que era hora de voltar ao passado e consertar alguns assuntos que estavam pendentes. Pegou um ônibus e chegou à cidade onde nasceu, cresceu e onde morava toda sua família. Desabafou todas suas frustrações na vida, pra seus pais. Era primeira vez que ela via os pais como aliados e não como os inimigos da sua adolescência. Estava se sentido cada vez melhor e achava que essa sua nova fase de vida seria uma ascensão sem fim. Queria ver as coisas que deixara pra trás, desejava ver os parques onde ela brincava, em que dera seu primeiro beijo e onde descobrira o amor. Repentinamente, surgiu uma curiosidade de rever seu antigo namorado, de conversar, de saber como estava a vida dele. Mais uma vez se deu conta de que sua vida não era ruim, de forma alguma, e que a realidade do seu namoradinho adolescente era bem parecida com a de suas amigas.
Uma aflição lhe tomava conta, ansiava voltar logo para sua casa, não a casa de seus pais e sim, àquela, que de fato era sua. Que comprara e reformara cada tijolo, até chegar a forma mais confortável. Chegando, enfim, em casa, se jogou, cansada, no sofá. Parecia mais que tinha vivido uma existência inteira em apenas um dia. E não deixou de ser verdade, pois obteve muitas respostas. Respostas que sempre quis saber e nunca soube obtê-las. Sentia-se feliz por tudo que fizera durante o dia e que a partir da próxima manhã todos os dias seriam daquele jeito e jamais deixaria de lado seus sentimentos ou os trataria como se fossem banais. Perguntava-se sobre seu emprego: e agora? A resposta era sempre a mesma: amanhã será um novo dia!
postado por: CECÍLIA JAPIASSÚ PORTO 3:48 PM
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Domingo, Outubro 03, 2004
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Eis aqui diante de vocês um texto de Vinícius de Moraes. Quem me emprestou o livro pra ler em específico esse texto foi João Faissal, e só quem me conhece sabe o quanto ele se parece comigo!
PARA UMA MENINA COMO UMA FLOR
Porque você é uma menina como uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.
E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas estrangeiras. E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.
E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.
E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, "Minha namorada", a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.
E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora - tão purinha entre as marias-sem-vergonha - a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa. E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche
de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos - eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações - porque você é linda, porque você é meiga e sobre tudo porque você é uma menina com uma flor.
(Vinícius de Moraes)
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postado por: CECÍLIA JAPIASSÚ PORTO 6:44 PM
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