Os tristes dias de Divina
Depois de tantos anos sentiu vontade de se ver no espelho. Sua face não se reconhecia mais. Observava as rugas nos olhos cansados de viver, a boca esquecida pelo tempo. Não lembrava mais o som de sua voz. Divina relembrava a última vez que leu Ce
m Anos de Solidão, se sentia como Úrsula, velha. Não sabia para quem vivia, ninguém mais notava sua presença. Os netos brincavam com seu corpo enfermo sob a cama. Os filhos pediam para que aquele sofrimento acabasse, que Deus de uma vez por toda à levasse para junto dele. "Lá ela será feliz", repetiam.
Já não sentia mais vontade de viver, afinal era um fardo. "Quem cuidará dela?", "Estou sem tempo!" seus próprios filhos reclamavam em alto e bom som. Talvez com intuito de magoá-la e assim adiantar sua morte. Morte, essa sim, era a mais ingratas das filhas sempre demorando a chegar.
Ninguém de sua família jamais soube como tinha sido sua vida ou seu casamento. Era uma verdadeira estranha para os filhos. Uma mãe ausente em presença, era muito reservada, muito tímida e calada. Sempre assistiu aos filhos com amor, mas nunca conseguiu expressar em palavras que sentia. Nunca ousou contar nenhum fato de sua vida. Era um verdadeiro livro em branco.
Quando começou a perder a lucidez, resolveram contratar Minervina para cuidar da velha gagá. Em seus desvaneios alguns segredos foram revelados, mas como a pobre criada iria desvendá-los? Mal sabia o nome daquela velha e para quem iria falar o quê ouvia, ninguém se importava mesmo.
Esses foram os últimos pensamentos e a última imagem vista por ela foi seu próprio rosto refletido. Por alguns minuto até esqueceu que era uma velha inútil e voltou ao tempo onde não havia rugas, nem cicatrizes ou marcas do tempo. Desvendou o grande ciclo da vida: nasceu, cresceu, reproduziu e estava prestes a descobrir a morte. Finalmente a ingrata chegara.
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postado por: CECÍLIA JAPIASSÚ PORTO 8:35 PM